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Flávia Gasi

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Homo, bi, intersexo e até drag queen: a cultura LGBTI+ na mitologia

Flávia Gasi

20/09/2019 13h33

Hi'iaka é uma deusa polinésia com amizades e amores bissexuais

Depois do episódio de censura que ocorreu na Bienal do Rio, em que o prefeito Marcelo Crivella resolveu encapar e retirar de circulação conteúdo considerado impróprio (conteúdo não-heteronormativo), acho que temos que falar sobre homossexualidade.

Como imagino que saibam a essa altura – mas nunca custa repetir para novos leitores e leitoras –, esta coluna tenta compreender o mundo em que vivemos a partir de mitos, lendas, e folclore. Todos os povos criam rituais e sistemas de crenças que explicam sua visão dos fenômenos naturais e da sua vida cotidiana.

E eu pergunto: se a homossexualidade é imprópria, errada ou fora da curva, ela seria representada desse jeito nos mitos ao redor do mundo e de diferentes culturas, certo? Ou, talvez, nem teria representação, já que a heterossexualidade seria o "normal". Pois então: não é bem assim. 

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Na verdade, há mitos com temática LGBTQIA+ e de identidade de gênero em praticamente todas as culturas do mundo. A pesquisadora Virginia Hamilton, no livro "In the beginning: Creation Stories from Around the World" ("No começo: Histórias de Criação ao Redor do Mundo"), afirma que a maior parte dos contos sobre a criação do mundo envolvem divindades intersexuais ou bissexuais. Estamos falando de lendas que precedem, e muito, nossa visão judaico-cristã da realidade. Porém, antes de explicar a razão, a meu ver, de acreditarmos que a heterossexualidade é a norma, gostaria de ilustrar alguns desses contos.

Na Grécia

A Grécia reúne inúmeras lendas homoafetivas, de todos os formatos e tamanhos. A temática lésbica é menos encontrada, mas há o mito de Calisto, em que Zeus se transforma na deusa Ártemis para chamar a atenção da donzela. Muitos deuses e semideuses tiveram relações homossexuais, como Apolo, Aquiles, Pã, Dionísio, Héracles (Hércules), Eros etc.

Calisto e Júpiter, por François Boucher

Até mesmo intersexuais aparecem nos temas gregos: Hermafrodito era o filho de Hermes e Afrodite. Seu mito aparece no livro "Metamorfoses" de Ovídio. Quando completou 15 anos, foi viajar e encontrou Salmacis, uma náiade (sereia) que tentou seduzi-lo em vão. Hermafrodito entrou nas águas vazias do lago e Salmacis mergulhou, enlaçando o moço e beijando-o violentamente, tocando em seu peito. Enquanto ele lutava por desvencilhar-se, ela invocou aos deuses para nunca mais separá-los. Seu desejo foi concedido e seus corpos se misturaram numa forma intersexual.

Na China

Outro local repleto de lendas com protagonistas homossexuais é a China. As tradições pré-taoísta e pré-Confúcio eram predominantemente xamânicas, ou seja, seus mitos tinham a ver com os elementos da natureza. Nessa tradição, a origem do amor masculino pelo mesmo sexo se deu no sul mítico. Muitas divindades foram consideradas homossexuais, como Yu o Grande, que era casado com uma mulher, e mantinha amores românticos com pessoas do mesmo sexo. Yu ascendeu ao panteão depois de conseguir colocar um fim à Grande Enchente (Dilúvio), domando as águas furiosas.

Na mitologia hindu, muitos deuses podiam trocar de sexo ou combinavam-se em formas ambíguas. Encontros homossexuais podem ser abençoados por deuses por ter caráter sacro. Também há mitos LGBTQIA+ no Japão e no budismo. 

De origem africana, há entidades chamadas Iwa, que seguem lembradas nas práticas religiosas do Haiti e no estado de Louisiana (EUA); estas geralmente estão ligadas a alguma área em particular da vida, como magia ou morte, por exemplo. O Ghede Nibo é um espírito gentil que ajuda a carregar a alma daqueles que morreram cedo demais, e muitas vezes ele é demonstrado como uma drag queen. Barão Samedi, seu pai, é mostrado como bissexual; Barão Lundy e Barão Limba são amantes; Erzulie Freda é considerado protetor dos homens gays; Erzulie Dantor protege a mulher gay; e há outros Iwa associados à cultura LGBTQIA+.

Na Polinésia e entre indígenas Navajo

As religiões da Polinésia compreendem um panteão diverso. Há um termo, aikane, que se usa para falar de duas divindades que têm um amor muito grande uma pela outra, seja de amizade, seja em contexto de bissexualidade. Hi'iaka, por exemplo, teve casos amorosos com duas outras deusas, Wahine-Omo e Hopoe. Hi'iaka é uma deusa muito importante. A ela era atribuída a dança Hulu, o canto, a magia e a medicina; e usava corujas como mensageiras. Ela e Pele mantinham uma relação harmoniosa entre trazer chuvas, trovões e manter os vulcões ativos. Ela vive entre a floresta, dançando com os espíritos.

Além de compreender mais gêneros em sua cultura (homem, mulher, homem feminino, mulher masculina, e alguns estudiosos dizem transgênero), os indígenas Navajo tinham um deus bissexual que era líder do povo borboleta. Begochidi atendia às necessidades sexuais das borboletas machos e fêmeas.

Homossexualidade e diversidade de gênero é anormal?

Essas são apenas algumas das histórias, que vêm de todos os cantos do planeta. Ainda há uma infinidade de outras lendas para quem quiser pesquisar. 

Algum tempo atrás, o autor Jonanthan Katz iniciou um debate interessante a partir do lançamento do livro "A invenção da heterossexualidade", em que questiona de onde vem nossa noção de que a heterossexualidade — e apenas ela — é normal. Depois de ler sobre tantos mitos de sexualidades diversas, há de se questionar o porquê de tantos deuses com tantas orientações sexuais (e diversidade de gêneros) não eram considerados anormais em sua cultura.

Para o autor, "a heterossexualidade significa um arranjo histórico particular dos sexos e seus prazeres". Partimos do princípio de que "a heterossexualidade é tão antiga quanto à procriação e a luxúria de Adão e Eva, eterna como o sexo e a diferença entre os sexos e daqueles primeiros seres humanos. Imaginamos que é essencial e imutável e não tem história". A partir daí, o livro tenta compreender a construção histórica da heterossexualidade.

Calcado nos estudos de Michel Foucault no livro "A História da Sexualidade", que explica que os padrões do que era heterossexual e homossexual eram bem diferentes na cultura grega, por exemplo, ele aponta que apenas nos séculos mais recentes a sociedade foi dividida em polos opostos – homo e hétero. E, só então, denominou-se um como "normal" e outro como "anormal". Para Katz, esse uso de linguagem é que determinou que a heterossexualidade é natural. Contudo, essa é uma premissa usada faz pouco tempo, criada por camadas mais poderosas da sociedade.

Nas práticas religiosas do Haiti, Erzulie Freda protege os homens gays

Foi no final dos anos 1860 que o jornalista húngaro Karl Maria Kertbeny criou quatro termos para descrever experiências sexuais: heterossexual, homossexual, monossexual, para masturbação, e heterogenit, para bestialidade. Em 1889, o psiquiatra Richard von Krafft-Ebing fez um catálogo do que chamava de "doenças sexuais", que incluía o estudo de bissexuais e homossexuais (mas essas palavras quase não eram usadas) – "heterossexual" foi usada 24 vezes, "bissexual" aparece duas vezes nas 500 páginas. Katz lembra que mesmo a Bíblia condena o sexo homossexual e a masturbação, porque a "semente" é desperdiçada. Os nomes heterossexual e homossexual não são usados.

Porém, foi o trabalho de Krafft-Ebing que abriu margem para considerarmos a heterossexualidade como normal, teoria debatida mais largamente por Sigmund Freud. Vale notar que muitos psicanalistas estudam sexualidade por outra ótica atualmente. Para Katz, o problema é reafirmar que nossa sexualidade existe em polos contrastantes e dicotômicos, um certo e um errado.

A censura de "material impróprio" advém da mesma mentalidade, criada por poucos sujeitos na história e assentadas em (ainda menos) representações culturais da sociedade humana. Temas LGBTQIA+ nunca foram tratados como anormais na história, até 1860. E isso serve a quem? Essa é a pergunta correta a ser feita. Se olharmos para o escopo de nossas lendas e de nossas culturais, a heterossexualidade nunca foi a única maneira de viver, normal ou correta. A homossexualidade sempre existiu, e sempre foi cotidiana, frequente, habitual e corriqueira. Assim, nunca imprópria.

Bibliografia base:

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: a vontade de saber. 6.ed. Rio de Janeiro: Graal, 1985.
FOUCAULT, Michel. História da sexualidade II: o uso dos prazeres. Rio de Janeiro: Graal, 1984.
FOUCAULT, Michel. História da sexualidade III: o cuidado de si. Rio de Janeiro: Graal, 1985b.
HAMILTON, Virginia "In the beginning-Creation Myths: Creation Stories from Around the World". 2003. p. 34
KATZ, Jonanthan Ned. A Invenção da Hetero Sexualidade. Rio de Janeiro: Ed. Ediouro Publicações, 1996.
OVÍDIO. As Metamorfoses. Trad.: David Jardim Júnior. Rio de Janeiro: Ediouro, 1983

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Flávia Gasi é doutora e mestre pela PUC-SP no programa de Comunicação e Semiótica. Sua dissertação de mestrado foi ampliada para se tornar o livro Videogames e Mitologia. Atualmente é CEO da Forja, sócia do blog Garotas Geeks, e criadora da escola Verve. Com mais de quinze anos de experiência em jornalismo e comunicação no mercado gamer e de cultura pop, fundou um grupo de estudos chamado JOI – Jogos e Imaginário, e dá aulas de narrativa para games.