PUBLICIDADE

Topo

Expresso do Amanhã, TNT-Netflix: o filme-videogame que incomodou Weinstein

Flávia Gasi

13/06/2020 04h00

Talvez você, como eu, esteja assistindo à "Expresso do Amanhã", nova séria da TNT, também em exibição na Netflix. A plataforma optou por liberar um episódio por semana, o que significa que escrevo essa coluna em meio a um lançamento. Ainda tenho minhas dúvidas se gosto ou não desta nova adaptação da HQ, mas percebo algo interessante.

Talvez você não conheça a primeira adaptação do quadrinho "Le Transperceneige" de Jacques Lob, Benjamin Legrand e Jean-Marc Rochette: o filme "Expresso do Amanhã", baseado na HQ, foi lançado de forma modesta em 2014. Dirigida por Bong Joon-Ho, o mesmo que venceu o Oscar 2020 por "Parasita", a obra não foi tão bem vista pela produtora e distribuidora.

Por que tanta gente não conhece o filme?

Hollywood tende a não aceitar muito bem películas que não cabem dentro de caixas, ou que sejam desconfortáveis. "Expresso do Amanhã" é brilhantemente bizarro, cheio de coração e violência gráfica, disputa de classes. É esteticamente grotesco e maravilhoso. Assim, a Weinstein Company (sim, do criminoso e predador sexual Harvey Weinstein) adquiriu os direitos do filme, mas se incomodou com os itens supracitados e com algumas falas em coreano. Reduziu a campanha publicitária do filme e as exibições nas salas de cinema.

Leia também:

A empresa decidiu que "Expresso do Amanhã" seria lançado por streaming e vídeo on demand duas semanas depois da estreia. Como a maior parte das franquias de cinema só aceita filmes que ficarão ao menos 90 dias nas suas telas, o lançamento foi afundado.

Ou seja, se você não tinha escutado falar do filme até recentemente, é porque sua estratégia de marketing foi, realmente, toda torta.

Um filme-videogame

O que é uma tristeza, pois, como entusiasta e pesquisadora de videogames, "Expresso do Amanhã" traz particularidades que o fazem parecer um jogo. Mas, primeiro, que tal tratarmos da premissa? O filme se passa em 2031, cerca de 18 anos após um desastre climático causado pelo homem, que mergulhou a Terra em uma nova era glacial. Assim, a sobrevivência só é possível dentro de um trem chamado "Snowpiercer" (ou Expresso do Amanhã), que circunda a terra congelada, nunca parando. O trem revela a estratificação social: há aqueles que vivem na pobreza extrema – os chamados "tailies", ou galera do fundão – e os passageiros mais privilegiados da terceira, segunda e primeira classes, que mostram graus que começam na pobreza e terminam na opulência total.

No filme, seguimos Curtis (Chris Evans), mas não sabemos muito sobre ele, nada sobre seu passado ou família. Ele e seus amigos querem sair do fundão e chegar à frente do trem. Essa é a missão principal. Esse é o foco. O filme é como um jogo de progressão lateral (como "Mario Bros" ou "Sonic"), no qual o protagonista pula de fase e fase, até chegar ao chefão. Desse modo, cada vagão pode ser tratado como uma fase específica – todos são bem diferentes, cada qual tem sua mecânica (ou seja, uma maneira de funcionar, de vencer, de chegar até o outro lado).

E aqui é que está a grande genialidade do filme: ele pode conter humor sombrio em um minuto (ou vagão), violência insana e homenagens ao filme "Old Boy" em outro, variar cores, estilos, funcionamentos. A progressão no filme altera como vivemos cada fase, sem nunca perder o foco da missão principal. E, sim, tem bastante ação de forma gráfica e de forma estética: todos os vagões foram criados para afetar quem lá está de modos diferentes. Além disso, há um modo de sobrevivência em jogos, no qual você deve resistir a hordas de oponentes. Esse filme me lembra exatamente disso.

Umas das coisas que mais curto é o surrealismo de "Expresso do Amanhã", e a atenção que Bong Joon-Ho deu aos detalhes. Falemos do segundo item primeiro: a película foi filmada na República Tcheca, no estúdio Barrandov, um local que permitia a construção do maior cenário possível. O designer de produção Ondrej Nekvasil ergueu um trem que teria 650 metros de comprimento se estivesse em uma linha reta. Os sets tinham todas múltiplas molas pneumáticas, e tudo parece vivo. Ao mesmo tempo, tudo parece impossível: vagões de orgia misturados a cenários escolares e um vagão que carregava apenas assassinos mascarados. Em uma cena, um homem tem o braço congelado e arrancado; em outra, Mason (Tilda Swinton) é a perfeita imagem do humor e do terror.

Ao final, temos a figura central: Wilford, o criador do trem e seu próprio mágico de Oz, que tem seu segredo. Acho melhor não contar, você deveria assistir.

Diferenças da série

A série "Expresso do Amanhã" se passa sete anos depois de o trem ser colocado em movimento. Ou seja, os passageiros do fundão se lembram bem de suas vidas antes dele. Assim, temos mais passado para os personagens. O foco no conflito de classe ainda está presente, e olhado de mais maneiras, sabemos mais sobre o ecossistema do trem e de quem o habita. Contudo, com menos brilhantismo que Ho trouxe para o filme.

Por outro lado, acho interessante que focamos em uma luta aparentemente eterna, real. Também me parece correto alterar o tom rápido da história. Na série, o protagonista é Layton (Daveed Diggs), um ex-detetive de homicídios – aparentemente, o único no trem inteiro (o que é um pouco forçado). Em seu começo, a série parece ser muito mais baseada em personagens do que em tramas tradicionais e em mistério. A premissa é que aconteceu um assassinato no trem, então a presença de Layton é requisitada.

Há uma reviravolta muito maior em torno do Sr. Wilford, o criador do trem, na série, que se comunica com seus passageiros através da chefe de hospitalidade Melanie Cavill (Jennifer Connelly). E esse segredo é o que me deixa mais animada para continuar, já que a ação, e as cores de Ho não são encontradas ali.

Sobre o Autor

Flávia Gasi é doutora e mestre pela PUC-SP no programa de Comunicação e Semiótica. Sua dissertação de mestrado foi ampliada para se tornar o livro Videogames e Mitologia. Atualmente é CEO da Forja, sócia do blog Garotas Geeks, e criadora da escola Verve. Com mais de quinze anos de experiência em jornalismo e comunicação no mercado gamer e de cultura pop, fundou um grupo de estudos chamado JOI – Jogos e Imaginário, e dá aulas de narrativa para games.