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Protesto: por que ele é saudável em uma sociedade

Flávia Gasi

21/01/2020 10h00

Neste momento de violência policial, em que em São Paulo um protesto contra o aumento da tarifa de ônibus não consegue andar 500 metros sem que seus integrantes sejam brutalmente combatidos, precisamos falar sobre protestos. Neste país em que há inúmeros projetos de lei que tentam criminalizar o direito de protestar, precisamos falar sobre rebelar-se, sobre criticar, e sobre apontar.

Protestar é algo maleável. Na gramática, não é apenas um verbo intransitivo: ele pode ser usado como transitivo – protestar ao que, a quem. Da mesma maneira, protestos tem formas diferentes de acontecer, com objetivos diferentes. No geral é para cobrar reflexão societária, influenciar opinião pública, como forma de autoexpressão. Em todo o protesto há um apontamento, uma crítica. Assim, protestar é sobre querer revelar algo. Quando há um protesto contra o aumento da taxa de ônibus, há diversos apontamentos sendo feitos ali, por exemplo. No caso: a disparidade entre salário mínimo e condições de vida, o lembrete de que ir e vir são direitos constitucionais, o fato de que muitas pessoas se deslocam muito na cidade de São Paulo para chegar aos seus empregos (a questão da periferia e do centro), entre outros.

Figura 1 – A Passeata dos Cem Mil, que ocorreu no Brasil em 1968, contra a Ditadura Militar

Ou seja, o protesto é sempre uma reação que pode se manifestar em um sem número de atos, como comícios, piquetes, carreatas, greves, boicotes etc. Em uma sociedade em que apontamentos não são escutados, essas vozes não necessariamente ficam abafadas por muito tempo. Elas podem se organizar em conflitos, choques ou rebeliões. Rebeliões não ocorrem em locais em que existe um poder que dialoga, mas em momentos em que há um poder verticalizado que deslegitima a voz de uma população. Geralmente, isso é um caminho, a imposição de um pré-totalitarismo. No totalitarismo, o governo proíbe partidos de oposição, não permite que seus cidadãos falem contra o Estado, controla a vida privada e pública do povo. Assim, proibir protestos é uma forma totalitária de agir, na política.

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Resistência e esperança

Resistência e protesto também podem ser formados por atitudes que subvertem um poder totalitário. A gente vê esse tipo de coisa no nosso cotidiano, mas talvez podemos entendê-las ou percebê-las mais facilmente em obras de ficção. Por exemplo, no filme dos Vingadores, o vilão da trama, Loki, amedronta a população de uma cidade, ordenando que todos se curvem frente a ele. Um homem mais velho se recusa a se ajoelhar, e isso faz com que outros tenham a coragem de protestar contra um ato totalitário. Rosa Parks, por exemplo, foi uma ativista norte-americana, que ficou famosa por ter se recusado a sentar em seu devido lugar (destinado aos negros) e a não ceder seu assento no ônibus para um branco. Esta atitude se tornou o estopim para uma revolução.

Vemos esse tipo de comportamento que funciona como uma desobediência civil em diversas obras de cultura pop, como Katniss se oferecendo como tributo no lugar de sua irmã em Jogos Vorazes; ou Mulan, que decidi ir para a guerra no local de seu pai, mesmo sendo proibido. Como diz o filme Rogue One, revoluções são criadas em cima de esperança. Inclusive, a mitologia grega tem uma personificação da esperança, Elpis é o próprio espírito da esperança, ela carrega flores e uma cornucópia nas mãos – a cornucópia é um símbolo muito usado no paganismo por representar tanto o sagrado feminino quanto o masculino, especialmente no equinócio de outono, quando se agradece pela colheita.

Figura 2 – O Deus Hanuman, do Hinduísmo

O Hinduísmo conta a história de Hanuman, deus-macaco e uma encarnação do deus Shiva, que havia se manifestado na Terra para ajudar Vishnu com suas tarefas. Em uma delas, ele se sentiu tão impotente, pequeno, e não queria que outros fossem arrastados para o mesmo local que contemplou o suicídio. Contudo, ele decidiu tentar mais uma vez, e não apenas ganhou sua força de volta, como seu nome ficou associado à coragem e à esperança, que andam lado a lado nesta imagem.

Os deuses também se rebelam

Também há muitos casos de deuses que se rebelaram, especialmente em prol da humanidade (muitos deles ganharam castigos terríveis – eu falo mais disto no texto sobre tortura e abuso de poder (https://flaviagasi.blogosfera.uol.com.br/2019/11/19/tortura-e-abuso-de-poder-paralelos-entre-historia-e-mitologia/). Talvez o mais conhecido seja Prometeu, que desafiou Zeus para dar conhecimento à humanidade. Foi Prometeu quem moldou a humanidade a partir do barro, mas Zeus quem deu o sopro de vida. Contudo, quem se importava com a criação e a continuidade da espécie era o Titã, que trouxe o próprio fogo do Sol para trazer calor para os povos – o calor e a luz são lidos como símbolos da iluminação do conhecimento. Prometeu permanece torturado até ser libertado por Héracles (Hércules), filho de Zeus. Nem o mais poderoso entre os deuses foi capaz de manter o rebelde acorrentado para sempre.

Outra história interessante é de Maui, semideus da mitologia polinésia, que usou de toda a astúcia para criar caminhos para a humanidade. Ele faz com que o Sol ande mais devagar para que os humanos tenham mais luz no dia, usa seu sangue para atrair peixes para a superfície do mar, e até tenta buscar a imortalidade para seu povo, e é por isso que acaba morto. Tudo que Maui fez enfureceu deuses e criou muitos problemas para o semideus, mas ele é considerado um campeão da humanidade.

Figura 3 – O benfeitor da humanidade, o deus Anansi

Anansi aparece em mitos da África Ocidental e do Caribe. Ele tem muitas histórias sobre sua esperteza, e uma das mais conhecidas diz respeito à humanidade. O poderoso deus do céu, Nyame, deu a complicada missão de capturar algumas das criaturas mais temidas da selva, usando apenas a sua inteligência. Anansi, contudo, conseguiu levar as feras uma por uma para Nyame, que teve que lhe contar todas as histórias sobre a criação do mundo. Anansi, então, leva tudo para a humanidade e as compartilha, dando aos homens os segredos da criação. Ele se torna um símbolo da resistência mítico, e real. Assim como pincelado pelo livro e série Deuses Americanos, acredita-se que Anansi tenha desempenhado um papel importante na vida do povo escravizado; servindo de inspiração para a criação de estratégias de resistência. Os contos de Anansi (que ele aprendeu com Nyame) ainda são contados como um meio de continuidade de toda uma cultura que se rebela contra o extermínio até hoje.

Todas as histórias mostram a coragem que há na resistência, no protesto, e na desobediência contra Estados ou figuras políticas poderosas. Tentar destruir o protesto também é tentar esmagar os próximos heróis da humanidade. Contudo, como bem mostram os mitos, isso é impossível. Mesmo que o castigo seja efetivo por anos, ele nunca é infalível.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Flávia Gasi é doutora e mestre pela PUC-SP no programa de Comunicação e Semiótica. Sua dissertação de mestrado foi ampliada para se tornar o livro Videogames e Mitologia. Atualmente é CEO da Forja, sócia do blog Garotas Geeks, e criadora da escola Verve. Com mais de quinze anos de experiência em jornalismo e comunicação no mercado gamer e de cultura pop, fundou um grupo de estudos chamado JOI – Jogos e Imaginário, e dá aulas de narrativa para games.