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Como fantasia e escapismo podem ajudar na quarentena

Flávia Gasi

25/03/2020 04h00

Muita gente está com dificuldade de se concentrar na quarentena, sentindo-se ansioso (a) ou triste. O que, obviamente, faz total sentido. Vivemos em um momento singular da história, e não sabemos muito bem como isso vai se desenrolar. Contudo, é muito importante que você fique em casa. E é aí que entra a arte, ou o entretenimento (para mim, essas palavras são sinônimas).

Nesta coluna, eu queria falar sobre escapismo. Geralmente, o termo é visto com maus olhos, como se escapar fosse algo indigno. Claro, que se escapar é a única coisa que dá significado ao dia, então realmente há algum problema na sua relação com o entretenimento. Por outro lado, o escapismo pode ser benéfico e ajudar a entender a si, trazer novas ideias, e criar relações diferentes com o mundo. A relação entre o escapismo e saúde mental começa com a fantasia.

(Arte baseada nos escritos de Tolkien)

Explorando o mundo mítico

Um dos autores de fantasia que defendia a função do escapismo foi J.R.R. Tolkien, da saga Senhor dos Anéis. Em seu livro Sobre Histórias de Fadas, Tolkien discute a função da fantasia no cotidiano da humanidade. Para ele, certas liberdades que a fantasia podem tomar são cruciais para a criação de um segundo tipo de mundo, um universo mítico: … "E de fato as histórias de fadas tratam em grande parte, ou ( as melhores) principalmente, de coisas simples e fundamentais, intocadas pela fantasia, mas essas simplicidades tornaram-se mais luminosas pelo seu ambiente. Porque o criador de histórias que se permite "tomar liberdades" com a Natureza pode ser seu amante, não seu escravo. Foi nas histórias de fadas que primeiro pressenti a potência das palavras e o prodígio das coisas, como  pedra, madeira, ferro, árvore e grama, casa e fogo, pão e vinho." (TOLKIEN: 2006b, 67)

Ou seja, por conta de histórias de fantasia, podemos entrar em um mundo secundário Secundário "no qual nossa mente pode entrar. Dentro dele, o que ele relata é 'verdade': está de acordo com as leis daquele mundo" (TOLKIEN: 2006b, 67). O mundo da fantasia não é um mundo mentiroso, sabemos que ele não é realidade, mas podemos senti-lo como se fosse. Para Tolkien, a fantasia não é apenas ler, ver ou interagir com imagens, mas causa um tipo de imersão que cria mundos diferentes na nossa mente.

Tolkien (2006ª, 2006b), acredita que, por conta dessa imersão, histórias de fadas têm algumas funções: propor fantasia, recuperar mundos e imagens, permitir escapismo e dar consolo. Sobre o escapismo (ou escape, como chama no texto), o autor comenta que não é uma forma de negação de realidade, que nem sempre é agradável. O escape não causa alienação, pelo contrário. Tolkien coloca que ao se desvencilhar da realidade, acabamos entrando em contato com a própria realidade, mas de outras maneiras.

Isso pode trazer consolo, ou seja, a possibilidade de entender a realidade com uma visão mais otimista, porque, na fantasia, espera-se que o final seja "feliz", como Tolkien coloca. Eu acredito que mesmo histórias que não terminam bem podem provocar esse tipo de catarse. Inclusive, A Poética, de Aristóteles, é uma obra que fala sobre a tragédia grega e sobre o seu potencial catártico.

Figura 2 – Tragédia grega como impulsionadora de catarse

A catarse

Em explicações rápidas, Aristóteles escreveu a Poética como uma forma de crítica literária, uma exposição de teoria e prática de poesia. Para o filósofo, a tragédia é uma imitação da ação. Ela é séria, completa, e contendo uma magnitude e prosa embelezada, dividida em partes, pela ação e não pelo discurso, pode levar à catarse. Para os gregos, a palavra Katharsis significa purificar, purgar, clarificar.

O livro mostra diversos apontamentos sobre como e porque Aristóteles acredita na tragédia como fomentadora de catarse, mas quero falar de dois em especial. De acordo com o autor, a tragédia mostra a história de um herói com falhas, humanizado, que aprende algo sobre si, e, assim, o público pode aprender juntamente com o protagonista. Pata tal, deve conter ou peripécia (mudança da fortuna) ou descobrimento (passagem da ignorância ao conhecimento), ou, preferenciamente, ambos.

A peripécia "é a mutação dos sucessos no contrário, efetuada do modo como dissemos; e esta inversão deve produzir-se, também o dissemos, verossímil e necessariamente. Assim, no Édipo, o mensageiro que viera no propósito de tranquilizar o rei e de libertá-lo do terror que sentia nas suas relações com a mãe, descobrindo quem ele era, causou o efeito contrário(…)."  Ou seja, ela não deve ser casual, e sim fruto de alguma desmedida – uma falha – do herói que deve surgir da própria história, provocando assim a catarse.

A anagnórise (reconhecimento) ocorre quando a peça mostra para o herói a sua fortuna, o desfecho da sua caminhada. E, sim, no caso é um final trágico. E, a partir disto, o protagonista tem uma revelação sobre si mesmo, sobre seus entes queridos e sobre seu entorno. A revelação dessa verdade muda a perspectiva e a reação do herói.

Assim, mesmo um mundo fantasioso que não tem final feliz, também pode proporcionar um escapismo que ajuda a purgar e clarificar – ressinificar a realidade.

Figura 3 – O quadrinho Sandman, de Neil Gaiman

A função do devaneio

Outro paralelo que podemos traçar é com o escapismo e a função devaneio para o filósofo Gaston Bachelard. Para ele, o devaneio, as imagens poéticas, mediam a relação entre a humanidade e seu ambiente, e podem trazer benefícios com a criação, recriação, e arranjo da realidade: "Os devaneios do escritor não são fugas da realidade. São instantes verticalizantes de inefável significação, transpostos numa obra escrita. Se o devaneio se liga à realidade, ele a humaniza, a engrandece, a magnifica. Todas as propriedades do real, desde que sonhadas, tornam-se qualidades heroicas. Assim, para o devaneio da água, a água converte-se na heroína da doçura e da pureza. A matéria sonhada não permanece, pois, objetiva, pode-se dizer realmente que ela se evemeriza." (BACHELARD: 1989, 205).

Ao criar um elo entre a realidade e nossas imagens, Bachelard coloca que o "devaneio é uma atividade psíquica manifesta" (BACHELARD: 1988, 144). Isto é, a fantasia não é mera, mas tem um papel importante nas nossas vidas. Neste momento de caos, a fantasia pode ser um local em que você pode ressinificar suas ideias, suas visões, medos. Sem deixar de lado o retorno para a vida real, pois o retorno é uma das partes mas importantes da jornada de qualquer herói, ou qualquer heroína.

 

Para ler mais:

ARISTÓTELES (1966). Poética. Introdução, tradução e comentários de Eudoro de Sousa. Porto Alegre, Globo.

BACHELARD. Gaston.(1989) A água e os sonhos. São Paulo: Martins Fontes. [1942].

___. (1988) A poética do devaneio. São Paulo: Martins Fontes. [1961].

TOLKIEN, J. R. R. As cartas de J. R. R. Tolkien. Org. por Humphrey Carpenter.

Curitiba: Arte & Letra Editora, 2006a.

_______. Sobre histórias de fadas. Trad. Ronald Kyrmse. São Paulo: Conrad Editora,

2006b.

Sobre o Autor

Flávia Gasi é doutora e mestre pela PUC-SP no programa de Comunicação e Semiótica. Sua dissertação de mestrado foi ampliada para se tornar o livro Videogames e Mitologia. Atualmente é CEO da Forja, sócia do blog Garotas Geeks, e criadora da escola Verve. Com mais de quinze anos de experiência em jornalismo e comunicação no mercado gamer e de cultura pop, fundou um grupo de estudos chamado JOI – Jogos e Imaginário, e dá aulas de narrativa para games.

Flávia Gasi