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No marco da abolição da escravatura, conheça HQs nacionais sobre negritude

Flávia Gasi

19/05/2020 04h00

A abolição da escravatura no Brasil tem como marco histórico o dia de 13 de maio de 1888, mas o processo de libertação não ocorreu apenas neste dia e deixa suas marcas até hoje. Sabe-se, por diversos documentos e livros (você pode encontrar alguns deles no final desta coluna), que a proibição do tráfico de escravos, por exemplo, que ocorreu em 1850, foi travada por medo de retaliação da Inglaterra. O país pressionava o Brasil para que a prática fosse extinguida.

Passaram 20 anos para que o movimento abolicionista ganhasse força real – e há muitos heróis negros no processo. A própria princesa Isabel não era necessariamente abolicionista, mas assinou o tratado por pressões políticas. O problema é que o fim da escravidão não marcou uma melhora na qualidade de vida dos ex-escravizados; pelo contrário, há diversas obras que mostram como negros libertos continuaram oprimidos pelos seus ex-senhores. Havia grupos de libertos que queriam migrar dos locais onde foram escravizados, mas eram presos por vadiagem e vagabundagem; ameaças físicas; sequestros de libertos; além de terem que aceitar condições de trabalho bem parecidas com aquelas que tinham durante o período de escravidão. Assim, libertos permaneciam em condições precárias, sem possibilidade real de estudo, de adquirir propriedade, e de ascender nas camadas societárias.

Ou seja, a abolição da escravatura é realmente um marco, mas dizer que os efeitos da escravidão acabaram, até mesmo nos dias de hoje, é ingênuo. Assim, para falarmos realmente sobre este marco, achei que você deveria conhecer histórias em quadrinhos que tratam da questão da negritude, e o que seus autores pensam a respeito de tudo isso.

Representatividade e história

É importante comentar por que a representatividade importa e, assim, por que as falas desses autores e suas são cruciais para a vivência brasileira. Especialmente no que diz respeito aos tropos ligados aos negros brasileiros, como lembra o multipremiado autor Marcelo D'Salete, vencedor do maior prêmio de quadrinhos internacional, o Eisner: "Representatividade é algo muito importante, especialmente se a gente pensa no Brasil nas décadas de 1970, 80 e 90, onde muitas vezes o negro aparecia apenas como serviçal, subalterno… Temos alguma diversidade hoje, mas ainda é aquém, se pensarmos que a maioria da população é de ascendência negra. E essa imagem ainda é uma imagem deturpada na mídia, é preciso avançar".

Para Rafael Calça, roteirista vencedor no notório prêmio Jabuti pela HQ "Jeremias: Pele", o convívio diário com esse tipo de imaginário da figura do(a) negro(a) nos revela as estruturas arraigadas do racismo: "O racismo não é nem nunca foi apenas focado em ofensas. Era a desumanização instaurada pela escravidão junto com sua justificativa: leis segregacionistas, livros, peças, charges e publicidade racistas… O ideal do negro como animalizado e digno de correntes, de favelas, de subempregos vem disso tudo. E o que é mostrado na cultura de massa molda a nossa percepção dentro da sociedade".

Alex Mir, autor de muitos e ótimos quadrinhos sobre orixás e cultura africana, e vencedor do troféu HQ Mix, corrobora a tese: "As pessoas precisam saber que podem ser o que quiserem. E os exemplos são importantes. Quebrar a homogeneidade da sociedade é de suma importância para que nossas crianças pretas cresçam admirando heróis pretos, exemplos pretos. Por muito tempo, o negro viveu à margem da sociedade, e ter representatividade é mostrar que isso vai mudar".

Além disso, a questão da abolição não é necessariamente tratada com complexidade nas nossas escolas. Ainda é preciso falar muito sobre o que ocorreu depois da Lei Áurea assinada. Por causa disso, Mir acredita que as HQs são essenciais como complementos de aprendizado: "As HQs têm o poder de atingir todos os públicos e, principalmente, a faixa etária infanto-juvenil", explica. "Nada melhor que a linguagem dos quadrinhos para mostrar a igualdade entre as pessoas e tudo o que não pode voltar a acontecer, evitando os mesmos erros. Nosso futuro está nas escolas."

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"A partir do momento em que temos o negro como protagonista de sua própria história, aprendemos a escutar o lado da história que não nos foi contada, que não está nos livros", comenta Marília Marz, que transformou seu trabalho acadêmico na história em quadrinhos "Indivisível". De fato, existe muito que não foi contado nos livros, e muitas histórias que vivem perdidas como grãos de areia: são inúmeras, multíplices e estão à vista, mas relativamente perdidas. A perda de conexão com o passado influencia diretamente, dizem este autores, na busca por possibilidades de futuro, pois nos rouba de compreender, de fato,  "as consequências socioeconômicas e políticas geradas, desde o período da escravidão até os dias de hoje, na vida de pessoas negras dentro e fora do Brasil e dos agentes responsáveis por elas", afirma Marz.

Este passado não contado não acontece apenas nos livros de escolas, mas tem repercussões no cotidiano de mulheres e homens de cor, como coloca Jefferson Costa, vencedor do Jabuti por "Jeremias: Pele", e autor do belíssimo "Roseira, Medalha, Engenho e Outras Histórias": "Não sei de que região e povo africano descende meu avô. Nem com exatidão de que tribos indígenas minhas avós descendem. Apenas probabilidades. O que sei, com toda certeza, é que foram resistência. Que foram o lado não contado e cantado na história".  Há muitas figuras esquecidas, sejam de contos familiares e pessoais, ou não, "personagens como Luís Gama, Zacimba Gaba do Espírito Santo, Tereza de Benguela, bem como do quilombo mais conhecido, de Palmares, personagens como Ganga Zumba, Ganga Zona, e diversos outros. Isso é essencial para que a gente compreenda de uma forma mais complexa a experiência negra e diaspórica no Brasil", explica D'Salete. E perdê-las não é uma possibilidade que deveríamos nos contentar, pois isto transforma a integralidade de cultura em anulação, como continua Costa: "É uma história que desconsidera o lugar e herança cultural de povos originários e formadores dessa própria história. O que destrói qualquer ideia de pertencimento e integração de povos. Integração é anulação e absorção. Pertencimento é ilusão.".

Contudo, ter representação nas histórias não deveria ser um fim, mas um começo. "Por mais que a representatividade seja muito importante – ter mulheres e homens negros em diferentes posições na mídia, em diferentes espaços da política e outros –, não podemos ser ingênuos em imaginar que apenas essa imagem de pessoas negras, indígenas e outros não negros em locais de poder, seja algo equitativo. Na verdade, não é", coloca D'Salete. O autor não desmerece, em nenhum momento, a necessidade de termos histórias, mas reforça e alerta que elas são o ponto de partida para que possamos gerar comprometimento de fato "com uma mudança na sociedade, e com as bases extremamente racistas, machistas e discriminatórias desta sociedade".

Essas HQs fazem uma parcela de resgate, e urgem que você possa entrar em contato com grãos perdidos. Seja para compreender a história de outrem, para reviver sua humanidade, ou, e mais importante, para servir como começo de uma mudança real. Assim, comece pelos quadrinhos abaixo.

Quadrinhos para ler

Série Orixás – Alex Mir

Desde 2011, Mir tem lançado livros compilados com histórias de Orixás, de histórias de criação, raízes dos deuses e de seus contos, guerras, entre outros. Eu recomendo que leia todos. O primeiro se chama Orixás – do Orum ao Ayê, seguido de Orixás – o dia do Silêncio, Orixás – Renascimento, e Orixás – Ekú.

O primeiro volume tem 80 páginas, e foi publicado pela editora: Marco Zero.

O que diz o autor: "Escolhi escrever essas HQs Primeiramente, para mostrar ao grande público o quão é bela a mitologia africana. Desmistificar uma cultura que é tão rica e faz parte das nossas raízes. E por causa da própria representatividade. Quando comecei, havia pouquíssimo material. Chegar às escolas foi uma vitória! Hoje já vemos diversas mídias falando da negritude. E isso é só o começo."

Roseira, Medalha, Engenho e Outras Histórias – Jefferson Costa

Calcado pelo realismo mágico e por lembranças, Jefferson narra histórias sobre o sertão nordestino e o movimento dos retirantes. Sensível, a HQ passeia por memórias e fala sobre as heranças da oralidade e da cultura. Com 224 páginas, foi lançada pela editora Pipoca & Nanquim.

O que diz o autor: "Buscar a conexão interrompida com essa herança ancestral passou a ser objetivo pessoal, e trazer à superfície em forma de arte sequencial, em forma de registro é resistir. Uma missão de formiguinha, de aprender, conhecer, não esquecer e passar a diante. Trazer provocações, reflexões e questionamentos a cerca desses assuntos escapando à formatação identitária de ilusão."

Indivisível – Marília Marz

Marília apresenta sua pesquisa sobre o bairro da Liberdade em São Paulo, e revela as raízes africanas que ficaram soterradas pelo concreto. Por meio da cidade, Marz fala de sua própria identidade. Indivisível foi lançado de forma independente e tem 72 páginas.

O que diz a autora: "Em minhas HQs e ilustrações busco tratar da relação entre indivíduo, identidade e cidade."

Angola Janga – Marcelo D'Salete

Angola Janga é uma HQ que retrata o período histórico de Zumbi dos Palmares e de Angola Janga, um refúgio africano na América do Sul, que resistiu por cerca de cem anos. Além de ser informativa, e dar rosto e voz a diversos heróis da época, é um relato grandioso, que deveria ser considerado patrimônio nacional. Também recomendo Cumbe e Encruzilhada.

O que diz o autor: "Faço quadrinhos devido a paixão que tenho por essa forma de expressão. Minha intenção com HQs desde sempre foi tentar falar um pouco sobre minha realidade, meu entorno. Isso não foi um projeto de antemão, arquitetado, mas foi uma narrativa que fui criando aos poucos. Minhas narrativas são um recorte dessa experiência negra e diaspórica no Brasil, a partir de personagens singulares e das minhas leituras da cidade de São Paulo no período contemporâneo ou do Brasil de séculos atrás."

 

Jeremias: Pele – Rafael Calça e Jefferson Costa

Focada no personagem criado por Maurício de Sousa, o quadrinho narra as primeiras dores de Jeremias ao enfrentar o racismo quando criança. A história segue, sensível, sobre as descobertas do menino com relação à sua identidade, e a realidade da sociedade com temporânea. Vencedora do Jabuti de 2019, a HQ ganhará versão audiovisual, em formato seriado.

O que diz o roteirista: "Eu evitei por muito tempo mexer nas minhas cicatrizes emocionais. Sinceramente quis contar histórias sem falar disso. Achei possível. Mas eu jamais seria feliz como escritor me escondendo. Quem sou vem de uma vivência específica e é por esse filtro que vejo o mundo. E agora que tantos leitores vieram me dizer como se emocionaram e se identificaram com o que digo, estou confiante de que preciso usar minha caneta pra escrever futuros possíveis para os meus."

Dois livros acadêmicos

"Viagem incompleta: a experiência brasileira". São Paulo: Senac, 1999.

"Dicionário da escravidão e liberdade". São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Flávia Gasi é doutora e mestre pela PUC-SP no programa de Comunicação e Semiótica. Sua dissertação de mestrado foi ampliada para se tornar o livro Videogames e Mitologia. Atualmente é CEO da Forja, sócia do blog Garotas Geeks, e criadora da escola Verve. Com mais de quinze anos de experiência em jornalismo e comunicação no mercado gamer e de cultura pop, fundou um grupo de estudos chamado JOI – Jogos e Imaginário, e dá aulas de narrativa para games.