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Flávia Gasi

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Sereia pode ser de todas as cores porque é um mito mundial

Flávia Gasi

2012-07-20T19:07:16

12/07/2019 07h16

Desde o anúncio da atriz e cantora negra Halle Bailey no papel principal da adaptação live-action de a Pequena Sereia, a internet encheu-se de questionamentos sobre sereias de pele negra e adaptações de mito. Alguns desses comentários afirmam que não há espaço no imaginário sobre sereias para uma caracterização afrodescendente.

Assim, nessa coluna, escrevo com dois objetivos em mente. O primeiro é mapear rapidamente contos e mitos sobre sereias, para que o imaginário da figura possa se tornar mais conhecido, ou revelado. O segundo é de compreender o que esses mitos falam das culturas que os criaram, para verificar o que está por trás do nosso entendimento do que são das sereias, da sua simbologia.

Com isso em mente, vale explicar que nosso conceito de sereias é misturado com outros tipos de criaturas que, em mitos antigos, estavam divididas entre seres diferentes. Há símbolos de mães da água, deusas que geralmente faziam parte de toda a criação; há as pessoas-peixe, que traziam conhecimento para a humanidade; e há o aspecto monstruoso: a sirena ou sereia, devoradora de homens. Essas categorias já foram notadas por outros pesquisadores, como é o caso de Marina Souza.

Inclusive, há lendas sobre todos os tipos de sereias em muitos cantos do mundo, da África à Assíria, ao Japão à Europa ocidental. Há imagens de sereias na Mesopotâmia antiga e na Babilônia, por exemplo. Seria impossível retratar todas nesta coluna, mas podemos começar com uma das representações mais antigas que temos, a mesopotâmica – vale notar que considera-se uma das mais antigas por conta de achados arqueológicos de imagens e por conta de investigação acadêmica, muitas culturas orais, como a africana, apresentam representações que podem ser tão antigas quanto.

Mesopotâmia

O Deus Oannes

Milênios antes de Cristo, os mesopotâmicos tinham um deus em forma do que hoje chamaríamos de tritão. Oannes ou Hea era mostrado também como um ser com corpo de peixe e pés humanos. Ele costumava passar o dia entre os humanos e retornar ao mar durante o entardecer. Ele ensinou muito à humanidade, como letras, ciência, arte, leis, agricultura e mais. Como uma figura civilizadora, ele funda o tropo da pessoa-peixe que traz iluminação e conhecimento ao povo que não é do mar.

Síria

Visão grega da deusa Síria Atargatis

Na antiguidade clássica, a deusa Atargatis era uma deusa da fertilidade Síria, que amava seu povo e sua cidade. Assim, ela também tomava para si a ideia de proteção de seus habitantes. Sereia, e às vezes chamada de sereia de areia, ela tinha dois símbolos sagrados ligados ao seu imaginário: a pomba (emblema de divindade amorosa), e os peixes (que representavam fertilidade e vida). Dizia-se que até o século 3, alguns homens se castravam voluntariamente em honra à deusa. Aqui começamos a ter uma ligação entre o sangue derramado e uma divindade amorosa – que veremos mais à frente nas sirenas greas. Contudo, Atargatis ainda entra no escopo das deusas mães da água, que protegem e amam seus povos.

África

Representação do coletivo das deusas africanas das águas doces ou salgadas

Na África existem diversos contos de divindades aquáticas. Mami Wata, significa "mãezinha da água"; ou Naé, significa "mãe". São nomes que se dão aos coletivos de deuses de águas doces ou salgadas. É um panteão vindo de África Ocidental, África Central e África Austral, que também é adorado pelas diásporas. Estudiosos dizem que há ligação de Mami Wata com sexo, e com fidelidade. Em contos nigerianos, homens podiam encontrar-se com Mami Wata na forma de mulher, como uma prostituta. Depois que ela se revela, fidelidade a ela leva à fortuna, e traição à ruína. A figura da Mami Wata também se liga à cura e fertilidade.

Entre as Naés mais conhecidas dos cultos de Jeje Mahi, estão Òsún (Oxum), senhora da beleza e das águas doces; e Yemanjá, senhora do oceano, ligada ao conhecimento e a inteligência, à família e à maternidade.

Assim, esses arquétipos de sereias estão ligados ao tropo das mães da água, mas também podem ser figuras civilizatórias, como as pessoas-peixe, como no caso da ligação de Yemanjá ao conhecimento e à família, e com Mami Wata e sua conexão com a fidelidade.

Japão

Uma Ningyo, da mitologia  japonesa

As Ningyos japonesas são criaturas metade peixe, metade humanas, que se aproximam de uma visão mais monstruosa e devoradora. Com aparência sinistra, ou detentoras de chifres, garras e dentes afiados, as Ningyos não eram nada sedutoras, mas podiam cantar e soavam como um pássaro ou uma flauta. Nas lendas em que aparecem, mostram que podem ser terríveis para aqueles que querem capturá-las, em um conto, uma delas causa um maremoto que enterra uma cidade inteira. Porém, como sua carne podia conceder imortalidade e suas lágrimas traziam juventude eterna, muitos pescadores partiam atrás delas. Vale perceber que mesmo com o aspecto mais monstruoso em pauta, as sereias japonesas não buscam ativamente suas presas, mas agem em defesa própria.

 

Grécia

As sirenas gregas não tinham cauda de peixe

Talvez o conto de sereia na sua versão predadora mais famoso seja a Odisseia, de Homero. O poema épico grego retrata as sereias como feiticeiras que cantam para levar os homens à loucura, ludibriá-los, e comer sua carne. De fato, Junito de Souza Brandão, que escreveu o Dicionário Mítico-Etimológico da Mitologia Grega, diz que as sereias são demônios, que se assemelham das harpias: "são essencialmente seres psíquicos, almas penadas". São íncubos que usam de carne e de sangue para torturar homens. Apesar de seu nome, elas não teriam cauda ou seriam associadas aos peixes.

Na mitologia grega também havia as Nereidas, que são ninfas marinhas e fluviais. Do grego, a raiz da palavra ninfa tem a ver com donzela, jovem pronta para desposar. Estariam mais próximas do mito europeu de Melusine, uma mulher espírito da água fresca e de rio sagrado.

Estátua da Pequena Sereia em Copenhage

Se lhe parece estranho que nenhuma que, em nenhum momento, eu falei sobre A Pequena Sereia, tanto conto quanto adaptação da Disney, é porque o mito da sereia, ou da nereida (mais calcado em Melusine) é apenas uma versão dentro de um vasto arcabouço de mitos. Na minha opinião, é também a fonte menos interessante de discussão sobre sereias, já que o único papel da sereia-ninfa está associado ao casamento. A sereia-ninfa já foi modificada um pouco na adaptação da Disney, já que Ariel tinha desejos de vida, mas sua figura ainda está intrinsecamente ligada ao casamento e à pureza.

Já a sereia monstruosa, devoradora de homens, é um arquétipo que começa na Grécia antiga (para a nossa cultura, a menos) e se fortalece durante a Idade Média, especialmente no seu aspecto punitivo com relação a atração sexual, bem diferente do que podemos ver no mito japonês, por exemplo.

Contudo, as lendas e mitos mais antigos sobre sereias ou divindades da água, tratam esse imaginário como uma mistura de contos de deusas-mãe e figuras civilizatórias, que ensinam a humanidade como viver, e como se relacionar entre si. Esses símbolos se tornam uma fonte muito mais interessante de discussão, pois se tornam heroínas que não são rasas, cada uma das sereias tratadas acima traz aspectos importantes de sua cultura, e não podem ser caracterizadas como apenas boas, apenas más. Elas podem ser punitivas ou amorosas, como um reflexo mais real da humanidade. Vale lembrar que essas lendas têm muitas faces, muitas cores, e advém de diversos cantos da terra. Uma sereia pode ser da cor que ela quiser. Afinal, ela sempre foi.

 

Para ler mais

Dicionário Etimológico da Mitologia Grega

https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/409973/mod_resource/content/2/demgol_pt.pdf

TCC de Sereias da Marina Souza

http://www.fapcom.edu.br/wp-content/uploads/2017/11/TCC-DE-MONSTROS-A-HERO%C3%8DNAS-Marina-Souza.pdf

Conto da Pequena Sereia

https://pt.scribd.com/doc/89271261/Conto-A-Pequena-Sereia-ORIGINAL-E-COMPLETO

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Flávia Gasi é doutora e mestre pela PUC-SP no programa de Comunicação e Semiótica. Sua dissertação de mestrado foi ampliada para se tornar o livro Videogames e Mitologia. Atualmente é CEO da Forja, sócia do blog Garotas Geeks, e criadora da escola Verve. Com mais de quinze anos de experiência em jornalismo e comunicação no mercado gamer e de cultura pop, fundou um grupo de estudos chamado JOI – Jogos e Imaginário, e dá aulas de narrativa para games.