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Flávia Gasi

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Colheita, frio, fogo e morte: as origens do Dia das Bruxas

Flávia Gasi

31/10/2019 04h00

A maior parte dos nossos feriados, incluindo os cristãos, tem alguma referência histórica em um passado mais distante que o imaginado. O dia das bruxas é um dessas celebrações que foi perdendo seu sentido inicial e que hoje ganha uma explicação bem diferente do que na sua concepção. Para começar que, no Brasil, o tal dia das bruxas deveria acontecer entre maio e junho, na passagem do outono para o inverno, já que estaria associado à passagem de um tipo de clima (e, assim, de um modo de viver) para outro.

Muitos autores associam as tradições do dia das bruxas, especialmente do Halloween norte-americano, com as festividades do Samhain, mas há muitas variáveis sobre o tema na Academia. Por vezes, o Samhain é considerado pastoral – ou seja, o momento de levar o rebanho para dentro, pois o frio chegaria nos pastos; e, mais comumente, está ligado a cultos de colheita. Essa teoria de Carol e Louis Winkler, esmiuçada no livro "Thousands of Years of Halloween", foi cunhada em 1970, e é a mais aceita hoje em dia. Assim, o próprio Samhain teria suas bases em culturas mais antigas, como a Babilônia e o Egito, que também tinham seus rituais de colheita.

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Para este texto, vamos partir do princípio das cerimônias de estação do ano, que foram as bases para os calendários (de antigos a mais contemporâneos). Assim, diremos que o Samhain era um festival gaélico e escocês que marcava o final do ano, o início de um novo ciclo. O momento de recolher a colheita, descansar, e pensar sobre o que se iria plantar no ano vindouro. Um fato interessante é que, de acordo com o autor Robert J. Myers, em seu livro "Celebrations: The Complete Book of American Holidays", Samhain significa final de verão, mas também pode significar a chegada da morte. No caso, a morte está ligada ao final dos dias de semear e colher, mas, por conta dessa conexão semântica, Myers acredita que a cultura Celta pode ter feito sacrifícios à Samhain, como para agradar a um deus da morte. Esse tipo de ritual tem muitos significados, e ocorre até hoje em muitas religiões e crenças (podemos falar mais sobre isso, no futuro, em outra coluna).

A explicação para isso, contudo, também pode ser pastoral. Como é o momento da última colheita, há indícios de que antigos povos da Europa sacrificavam seus gados e preservavam sua carne para o inverno, tanto para comer, quanto para preservar os animais, que morreriam durante o inverno.

O papel do fogo

De qualquer maneira, o fogo era algo presente nos rituais de Samhain, seja pelo sacrifício, ou apenas por criar fogueiras. Myers coloca que na noite da celebração, os celtas acreditavam que o véu que separava os vivos dos mortos ficava mais tênue, e que os fantasmas visitavam suas casas antigas. Além deles, bruxas, goblins e outros tipos de criaturas passeavam pela Terra para causar um tanto de caos e se divertirem. O fogo, então, tinha um caráter purificador, de afastar os espíritos ruins – até hoje vemos o dia das bruxas como um dia mais místico, em que tudo pode acontecer, de espíritos e bruxas a muitas lendas urbanas, como a da maçã com uma lâmina dentro.

O fogo permanece como uma forma de purificação. Gaston Bachelard, estudioso do imaginário, diz que o fogo pode ser considerado um exemplo de purificação ativa, pois cria luz. Na obra "A Chama de uma Vela", ele comenta: "O mal é, assim, o alimento do bem. Na chama o filósofo reencontra um fenômeno-exemplo, um fenômeno do cosmos, exemplo de humanização. Seguindo esse fenômeno-exemplo, o fogo serviria para "queimarmos nossas iniquilidades". A chama purificada, purificante, clareia o sonhador duas vezes: pelos olhos e pela alma […]" (BACHELARD, 1989:30). Ou seja, o uso de fogueiras não apenas clareia a escuridão da noite, onde os demônios podem estar escondidos, mas também queima o próprio mal para alimentar o bem.

Outro ponto que o autor levanta no livro "Fragmentos de Uma Poética do Fogo" é sobre atirar-se ou atirar algo ao fogo se houvesse uma esperança de que o que é atirado no fogo pode retornar como um tipo de fênix. Como se nossa imaginação acreditasse que tudo que é consumido pelo fogo tivesse algum tipo de garantia de retorno, de uma maneira diferente.

Uma das coisas que me chama a atenção é que o ritual de fogueiras pode ser encontrado em diversos povos, especialmente perto da Inglaterra. A maior parte deles acontece perto da data de Samhain, como a Noite das Fogueiras, que ocorre no dia 5 de novembro. Esse evento foi relembrado na HQ "V de Vingança", de Alan Moore. Na nossa história, a Revolução da Pólvora foi um conflito religioso ocorrido em 1605. Uma conspiração católica que queria depor o rei protestante Jaime I. Guy Fawkes era um especialista em pólvora e foi preso, torturado e acabou executado por traição. Na história do quadrinho, um revolucionário com a máscara de Guy Fawkes quer depor um regime totalitarista fictício. A Noite das Fogueiras é tratada na HQ como um momento de superação, de união entre o povo, de purificação do regime.

No Brasil, essa tradição está também ligada ao inverno, e é festiva. Basta notar as fogueiras criadas no dia de São João.

A tradição das abóboras também vem de lendas celtas. De acordo com Tad Tuleja em "Curious Customs: The Stories Behind 296 Popular American Ritual", o conto popular tem como figura central um irlandês bêbado chamado Jack, que conseguiu enganar o diabo duas vezes. Na primeira ele disse que acompanharia o demônio ao Hades se tivesse seis centavos para tomar uma última bebida primeiro. O diabo se transformou em moedas de seis centavos que Jack embolsou. Ele, então, disse que só o deixaria ir se ele não viesse atrás de sua alma por dez anos.

Passado esse tempo, quando o diabo voltou, Jack pediu a ele uma maçã de uma árvore. Quando o demônio escalou, Jack esculpiu uma cruz no tronco, impedindo que o inimigo descesse. O diabo ficou tão bravo que quando Jack finalmente morreu e foi barrado no Céu, ele disse que também não o aceitaria no submundo. Jack deveria vagar a terra como um morto-vivo. Quando Jack saiu dos portões do inferno, o diabo atirou pra ele um nabo esculpido com uma careta, criando o símbolo pela primeira vez. As crianças irlandesas faziam caretas com batatas, nabos e rutabagas, e colocaram velas acesas dentro deles. O uso da abóbora é mais recente.

Apesar de bruxas e demônios, a simbologia de Samhain está mais ligada com o ciclo de vida e de morte. Uma versão do estudo do Samhain diz que este é o dia em que o deus morre, apenas para renascer como uma criança. O fogo, assim, seria uma metáfora para uma centelha de vida, como a interpretação possível que vimos em Bachelard. Nesta versão Samhain não é o deus da morte, mas a própria morte que precisa ir-se para dar espaço ao novo.

Se tomarmos essa perspectiva, a conexão da morte como o mal só aconteceria depois do advento do cristianismo. Durante a época em que começou a ser disseminado, a Igreja Católica tentou banir muitos ritos e cultos. Mas, no fim das contas, eles perceberam que era mais simples alterar o calendário e as crenças, criando sua própria visão das festas pagãs. Assim, em 835, o Papa Gregório 4º designou o dia 1º de novembro, Samhain, como o dia "Todos os Santos". Nessa época, coloca Myers, a Igreja também imitou o baile de máscaras, incentivando desfiles nos quais as pessoas se vestiam como seus santos favoritos. Essa tentativa não pegou muito bem, então, em 998, o abade Odilo de Cluny criou mais uma celebração no dia 2 de novembro, que foi adicionada ao calendário oficial católico pelo papa João 19 em 1006. No Brasil, ainda se comemora o dia do Saci no 31 de outubro.

Dessa maneira, o ritual da morte representado pela Roda da Vida celta ainda permanece na nossa cultura, mas modificado ao longo dos anos. Para você, leitor(a), desejo um feliz dia das bruxas. Cuidado com o véu que separa os mortos dos vivos, se você acreditar nisso.

 

PARA LER MAIS

BACHELARD. Gaston. (1989b) A chama de uma vela. Trad. G. de C. Lins. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.

___. (1990) Fragmentos de uma poética do fogo. São Paulo: Brasiliense.

MYERS, Robert J. (1972), Celebrations: The Complete Book of American Holidays, Garden City, NY: Doubleday, 257-264.

TULEJA, Tad (1987), Curious Customs: The Stories Behind 296 Popular American Rituals, New York: Harmony Books.

TREVARTHEN, Geo Athena. "The Celtic origins of Halloween transcend fear." Phi Kappa Phi Forum, vol. 90, no. 3, 2010, p. 6+. Gale Academic Onefile, Accessed 28 Oct. 2019.

WINKLER, Louis and Carol Winkler (1970), "Thousands of Years of Halloween," New York Folklore Quarterly, 26 (September), 204-215.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Flávia Gasi é doutora e mestre pela PUC-SP no programa de Comunicação e Semiótica. Sua dissertação de mestrado foi ampliada para se tornar o livro Videogames e Mitologia. Atualmente é CEO da Forja, sócia do blog Garotas Geeks, e criadora da escola Verve. Com mais de quinze anos de experiência em jornalismo e comunicação no mercado gamer e de cultura pop, fundou um grupo de estudos chamado JOI – Jogos e Imaginário, e dá aulas de narrativa para games.

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