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Flávia Gasi

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Lobisomem no mundo e no Brasil – os símbolos que explicam o mito

Flávia Gasi

22/10/2019 04h00

Neste mês das bruxas, nada mais justo que a gente passear por alguns dos símbolos mais conhecidos do mundo do sobrenatural, certo? Assim, queria começar explorando uma das imagens mais conhecidas do mundo ocidental: a licantropia – ou seja, a habilidade de se transformar em lobo. Nossa ligação com esse tipo de animalização é bem comum desde a Antiguidade clássica, mas talvez você não saiba que ela adentrou vários tipos de imaginário, da literatura de horror a uma adaptação em uma lenda indígena de um povo brasileiro.

Na verdade, antes de pessoas-lobo se tornarem algo comum em nossas histórias, a habilidade de metamorfosear-se em outro animal sempre foi uma das formas mais antigas de se pensar o xamanismo, e pode ser encontrada e em uma das peças mais antigas da literatura: a Epopeia de Gilgamesh (poema épico da Mesopotâmia, lançado no século 7 a.C. pelo rei Assurbanípal). A associação do homem com o animal (incluindo o lobo), então, é bem antiga, especialmente na cultura oral.

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Contudo, o lobisomem ou licantropo, como era chamado na Grécia antiga, foi apresentado na obra "Metamorfoses" de Ovídio, que fala sobre o rei Licaón. O ditador servia cabeças dos filhos aos pais, e tinha hábitos canibais. Quando ofereceu carne humana a Zeus, ele o transformou em um lobo:

"(…) querendo falar, uiva o perverso:

Colhem do coração braveza os dentes,

Co matador costume os volve aos gados:

Inda sangue lhe apraz, com sangue folga.

A veste em pêlo, as mãos em pés se mudam,

É lobo, e do que foi sinais conserva:

As mesmas cãs, a mesma catadura,

E os mesmos olhos a luzir de raiva." (Ovídio, 2003, p. 25).

Em Roma existia uma festa dos lobos, a lupercália, e havia uma história conhecida sobre um homem que se transformava em lobo. O cristianismo vai usar bastante o mito da licantropia como forma de punição de pecadores – e o lobisomem arrependido podia ser curado. Além disso, há mitos sobre pessoas-lobo na França, entre os saxões, na Rússia, em antigos contos alemães, na Europa eslávica, nos Bálcãs e mais. Até a Turquia tinha lendas xamânicas que, por meio de muitos rituais, as pessoas poderiam virar lobos de forma voluntária – o povo turco considerava, inclusive, o lobo como seu ancestral animal.

O mito do lobisomem no Brasil

Apesar de muitas histórias xamânicas sobre metamorfoses, a ideia de lobisomem que temos hoje não é originária de nativos brasileiros, mas dos colonizadores portugueses. Claro que essas lendas começaram a se misturar depois do contato entre os povos, mas a pessoa-lobo como decadente e pecaminosa é uma noção europeia.

No imaginário português, há alguns tipos de lobisomens: Peeiras, as fadas dos lobos, mulheres-lobo que têm o poder de controlar as alcateias; Corredores, que podiam assumir a forma de lobo ou de cachorro, e eram obrigados a correr o fado; Tardos, duendes que tomavam forma de animais, e viraram lobisomem definitivamente depois de sete anos, se o encanto não fosse quebrado; Corrilários, almas penadas em forma de cachorro.

No Brasil, as lendas foram se misturando, dependendo da região. No Norte, uma pessoa anêmica se transformaria em um lobisomem, e beberia o sangue de outras pessoas para compensar sua doença. A transformação só acontecia nas noites de quinta para sexta-feira, em uma encruzilhada (imagino que seja uma forma de gerar suspeita em religiões de matriz africana). Já no Sul, o lobisomem era criado pelo incesto. Em algumas versões, não seria o incesto, mas menino nascido após uma sucessão de sete mulheres, ou o oitavo filho.

Na Amazônia, também peruana e boliviana, acredita-se que o Luison, uma criatura tupi-guarani, tinha poder sobre a morte. Similar a um grande cão ou um lobo sul-americano, o Luison tem barbatanas de peixe, e é o sétimo filho homem de Tau e Keraná. A criatura carrega a maldição de se transformar em uma criatura com metade das características de um cachorro muito grande e um homem. Não se sabe se o mito foi misturado com os contos portugueses depois da colonização.

Em seu artigo: "O lobisomem entre índios e brancos: o trabalho da imaginação no Grão-Pará no final do século XVIII", Mark Harris comenta que o mito do lobisomem se espalhar pelo Brasil pode ser atribuído a dois fatores principais: "1) a possibilidade de os imigrantes sistematizarem com os recursos de uma mentalidade primitiva o olhar sobre os mistérios e as peculiaridades típicas de uma terra que se punha diante deles através de um panorama selvagem, desconhecido e até mesmo hostil; 2) o desejo de atribuir aos mitos – bem como aos demais elementos folclóricos – a função de agregadores culturais, de dispositivos capazes de perpetuar elementos identitários através de crenças comuns que habitam o imaginário coletivo da sociedade em questão."

O lobo que devora

Ou seja, essa mistura de lendas pode significar uma homogeneização da cultura, de modo que colonizadores e colonizados compartilhem de um mesmo imaginário – o que, apesar de fazer total sentido, não é foco deste texto. E, também, para traduzir hostilidade. Essa tradução do mito é, talvez, o foco de todas as lendas de lobisomens no mundo – não no sentido de que compartilhamos isso em um tipo de imaginário a priori, mas, como colocado por Harris, colonizamos nosso imaginário com essa imagem do lobo.

O estudioso do imaginário Gaston Bachelard percebe uma ligação alquímica da imagem do lobo com uma substância voraz: "Nada legitima exteriormente as metáforas do leão ou do lobo, da víbora ou do cão. Todos esses animais revelam-se como metáforas de uma psicologia da violência, da crueldade, da agressão, as quais correspondem, por exemplo, à rapidez do ataque. Um bestiário metálico está em ação na alquimia. Esse bestiário não é um simbolismo inerte" (em "A terra e os devaneios do repouso: ensaio sobre as imagens da intimidade", p. 62-63). O lobo, então, seria uma tradução da nossa voracidade.

Essa animalidade que colocamos no humano, especialmente na boca de devora, diz Gilbert Durand, se torna um símbolo devorante, que está associado ao medo e a dor. "Para a imaginação ocidental, o lobo é o animal feroz por excelência. Temido por toda a Antiguidade e pela Idade Média, volta aos tempos modernos (…) constitui o equivalente mítico e invernal das cobras do mar estivais. O lobo é ainda no século 20 um símbolo infantil de medo pânico, de ameaça, de punição. (…). Num pensamento mais evoluído, o lobo é assimilado aos deuses da morte e aos gênios infernais." (Durand, 2002, p.86).

Assim como Luison, o lobo estaria associado a uma morte devoradora. E, muitas vezes, como é o caso de Liacón, dos lobisomens que se alimentam de sangue humano, e dos lobisomens criados por incestos, o lobisomem é devorador porque parte de uma queda pecaminosa: "A queda é (…) simbolizada pela carne, a carne que se come, ou a carne sexual, unificadas uma e outra pelo grande tabu do sangue." (Durand, 2002, p.118).

O desejo de devorar

Não é à toa que a o conto da Chapeuzinho Vermelho e tantos outros contos sobre pessoas-lobo e lobisomens têm a ver com desejo sexual. Talvez você não saiba, mas em muitas versões do conto, especialmente as mais antigas, Chapeuzinho é assediada sexualmente pelo lobo. Essa ligação do pecado carnal e da voracidade é marcada pela carne e pelo tabu da carne. A floresta, inclusive, é conhecida "principalmente na Idade Média como um local fora dos limites da lei e do controle, a habitação dos seres banidos da companhia humana, a casa do demônio onde o lobisomem habitava", dizem Chevalier & Gheerbrant em seu "Dicionário de símbolos".

Assim, o lobo pode ser visto como o criminoso, o maléfico, e pode ser desejado por algumas razões. A primeira delas é o desejo de ser visto como um inimigo a ser respeitado e temido. A Alemanha nazista, por exemplo, criou uma operação de guerra chamada "Werwolf",uma força de elite para se infiltrar nos territórios dos Aliados – no livro de ficção "Wolf Hunter" de J. L. Benét, o autor coloca esses soldados como lobisomens.

Mas também há outro tipo de vontade de devorar, aquela que é intimamente desejada pelo ser que vai se transformar em lobo. Hoje em dia, há muitos livros e filmes que tratam disso (e você pode experimentar ser um lobisomem em RPGs por aí), mas acho que vale a pena destacar o livro "O Médico e o Monstro", que trata do estranho caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde, em que um médico renomado ganha uma versão animalizada de si mesmo. Dr. Jekyll se transforma em algo bem parecido com um lobisomem quando vira Mr. Hyde: "As [mãos] de Henry Jekyll – como você, muitas vezes notou – são mãos de intelectual, no tamanho e no feitio: fortes, brancas e firmes. Mas aquelas que eu via agora (…) eram secas, nodosas, ossudas, de um tom escuro e sombreadas por uma espessa camada de pelo. Eram as mãos de Edward Hyde!" (Stevenson, 2004, pág. 77). Hyde representa todos os desejos que Jekyll não pode ter.

O autor argumenta que há um devir animal em todos nós. Depois de morto, uma carta de Jekyll diz que o médico descobriu uma poção que o transformava em uma criatura sem escrúpulo, e que ele tinha gostado do resultado, mas que perdeu o controle sobre o monstro.

Há quem diga que controlar seu Mr. Hyde interno é o que a humanidade deve fazer. Há autores que colocam que essa forma de cura, via repressão, não realmente resolve nada, mas se torna uma forma de controle político das populações, que vão domar sua agressividade até pararem de lutar por seus sonhos. Deleuze e Guattari afirmam que o sistema educacional tem o propósito de transformar garotos-cachorros curados de seus devires animais, a ponto de não brigarem mais por seus territórios. Talvez os filósofos não estejam tão errados assim, pensando na nossa situação política atual.

Bibliografia base:

BACHELARD. Gaston. (1990a.) A terra e os devaneios do repouso: ensaio sobre as imagens da intimidade. São Paulo: Martins Fontes. [1948].

BARING-GOULD, Sabine. O livro dos lobisomens. Tradução de Ronald Kyrmse. São Paulo: Aleph, 2008.

CHEVALIER, Jean & GHEERBRANT, Alain. "Floresta". In: _____. Dicionário de Símbolos. Tradução de Vera da Costa e Silva et al. 11. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1997. p. 439-440

DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. O anti-édipo: capitalismo e esquizofrenia. Lisboa: Assírio e Alvim, 1996a. ___ o Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia, VaI. 1. Rio de Janeiro: Ed. 34,1995. ___ o Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia, VaI. 2. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1996b.

DURAND, Gilbert. (2002) Estruturas antropológicas do imaginário: introdução a arquetipologia geral. São Paulo: Martin Fontes, 2002.

HARRIS, Mark. O lobisomem entre índios e brancos: o trabalho da imaginação no Grão-Pará no final do século XVIII: https://www.redalyc.org/pdf/4056/405641269003.pdf

OVÍDIO. Metamorfoses. Trad. Du Bocage, Manuel . São Paulo: Martin Claret, 2003

ROCQUE, Carlos. Grande enciclopédia da Amazônia. Belém: Amazônia Editora, 1966.

STEVENSON, Robert Louis. O médico e o monstro. Tradução de Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2004.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Flávia Gasi é doutora e mestre pela PUC-SP no programa de Comunicação e Semiótica. Sua dissertação de mestrado foi ampliada para se tornar o livro Videogames e Mitologia. Atualmente é CEO da Forja, sócia do blog Garotas Geeks, e criadora da escola Verve. Com mais de quinze anos de experiência em jornalismo e comunicação no mercado gamer e de cultura pop, fundou um grupo de estudos chamado JOI – Jogos e Imaginário, e dá aulas de narrativa para games.

Flávia Gasi