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Esférica ou plana? A simbologia dos mitos por trás do terraplanismo

Flávia Gasi

28/06/2019 12h38

Como o nascimento e a representação do mundo e do universo dizem muito do nosso sistema de crenças

Sempre que há alguma discussão na sociedade que tenta trazer à tona modelos de pensamentos antigos, e um tanto ultrapassados (sejamos sinceros), eu tento me perguntar qual é a razão para que isso aconteça. Para mim, é sempre válido buscar no passado informações e métodos de crenças que possam ajudar a compreender o que está realmente em questão. Quando o movimento terraplanista ganhou força, eu passei a pesquisar o que significava para antigos mitos ter uma terra esférica ou uma terra plana. Compartilho esses achados aqui, na esperança de que possamos discutir isso um passo adiante: o que significa, em termos simbólicos, acreditar numa terra plana ou numa terra esférica.

Há diversos mitos de criação da terra, assim como há uma infinidade de cosmografias que podem ser encontradas em diversos povos ao longo do mundo. A descrição e o estudo do mundo e do universo (kosmos + graphía) foi muito utilizada durante séculos para compreender os estudos do mundo em relação ao cosmos, mesmo que o termo tenha caído em desuso durante as décadas de 1980 e 90. A cosmografia quando associada à mitologia, como é o caso desse texto, vai ganhar lentes e focos diferentes. Aqui, o objetivo é o de compreender como diferentes culturas tratavam do formato da Terra em relação ao cosmo, e aos seus deuses. Contudo, para o leitor ávido que se interessa nas aplicações científicas da praxis da cosmografia, deixo links ao final deste texto.

Cosmogênese, cosmologia e cosmografia podem ser consideradas as bases do pensamento de um povo, afinal, quando definimos como o mundo foi criado e como ele pode ser representado, colocamos aí todos os princípios de crença de um povo. Na origem do mundo podemos encontrar a origem dos deuses daquela cultura; e na representação gráfica da relação desse mundo com o universo, podemos encontrar a forma como essas crenças se organizavam.

Por exemplo, nos mitos nórdicos há um poema chamado "Võluspa", de autor desconhecido, que narra como o mundo nasceu. Ginungagap, o abismo primordial, demorou incontáveis anos para se tornar duas regiões: ao sul Muspelheim, o reino do fogo cósmico e dos gigantes de fogo; ao norte Niflheim, o reino do frio, e da escuridão. No centro do mundo havia um caldeirão borbulhante que alimentava rios gelados. Os dois mundos passaram a se aproximar até que se encontraram no meio do caldeirão. A vida foi formada a partir das águas salgadas, depois de séculos de atrito entre o mundo gelado e o mundo quente. Ginungagap, o caldeirão, ganhou a centelha geradora de vida. O conto total é bem interessante e, claro, depois de um tempo, passa a ser focado nas batalhas entre os deuses. O importante aqui é notar que o mundo nórdico é criado da dramatização entre fogo e gelo: Muspelheim e Niflheim; e, que, portanto, sua representação de mundo mostra isso:

E se você ficou em dúvida, Yggdrasil, a árvore colossal, estaria ao meio unido os reinos

Esses opostos ficam presentes em toda a cosmologia ou cosmografia da mitologia nórdica, pelos seus polos opostos no mapa. Além de Muspelheim e Niflhei (Fogo e Gelo), outras oposições são adicionadas como: Asgard e Jotunheim (Ordem e Caos), e Álfheim e Svartalfheim (Luz e Obscuridade). Para a mitologia nórdica, essas justaposições e conflitos são importantes, e vão permear toda a cultura. Desde seu nascimento até a morte dos deuses com o Ragnarok – e vale notar que durante o evento escatológico, até mesmo o mais poderoso entre os deuses vai morrer.

Ou seja, podemos perceber que a cultura que criou esse mundo estava bem calcada em diferenciar contrários, em batalhar por um ideal de ascensão; e acreditava que, por mais esses opostos estivem unidos por um tronco, eles eram o foco da fundação e da derrocada do mundo. A vida, aqui, é gerada por atrito, mas os dois lados da moeda estão sempre conectados.

Modelo terraplanista

Talvez o modelo terraplanista mais famoso seja o mesopotâmico, e, mais especificamente, o babilônico. Ele vai ser a base fundadora para criar a teoria também entre os astrônomos da época (mesmo que depois essa concepção tenha sido terminantemente refutada por Aristóteles e outros cientistas até os dias de hoje). Para eles, o universo era composto de seis níveis: três firmamentos (dois acima das estrelas e as próprias estrelas), e três terrestres (a Terra, o submundo de Apsu, e o submundo pertencente aos mortos).

A criação do mundo é um tanto parecida com a nórdica; inclusive, o mundo nascer de seres contraditórios é bem comum em muitos mitos. Tiamat, o vilão da história, e Apsu, o primeiro criador, criaram os deuses dentro deles, antes de entrarem em conflito. Mas um grande deus heroico chamado Marduk colocou ordem na casa. Os babilônicos acreditavam que a vida só é possível com a derrota do caos, e suas narrativas tem paralelos com a Bíblia, por conta de relatos de caprichos dos deuses, intriga entre povos, e até um dilúvio.

Se você acha essa história parecida com algo, é porque ela é bem similar aos mitos gregos, por exemplo. Nessas lendas, existe sempre uma figura mítica que impõe a ordem, doa a quem doer. Nesse ponto, os babilônicos tinham crenças bem diferentes dos nórdicos. Marduk é mais parecido com o impiedoso Zeus, e nenhum dos dois se sacrificou pela humanidade, diferente de Odin. Dizem até que Marduk criou a humanidade apenas para ter alguém para adorá-lo.

Os modelos terraplanistas tendem a compartilhar essa gênese do mundo, pois costumam mostrar divindades que, ao mesmo tempo que tenham defeitos ou não sejam perfeitas, tendem a controlarem a vida da humanidade de maneira verticalizada. A terra, o local dos humanos, fica nessa metáfora de achatamento frente ao divino. Ou seja, culturas que adotam o terraplanismo ao longo da história tendem a tratar dos seus símbolos culturais por um viés maniqueísta e totalmente polarizado, em que um lado está a favor do divino, e o outro está a favor do demoníaco. Essa divisão passa a permear relações humanas e outros sistemas. Isso sem contar na crença de que um herói pode salvar o mundo e colocar as coisas em ordem, e que o mundo pode se livrar de caos.

Modelo esférico

Os hindus tinham muito de astronomia nos Vedas, seus textos sagrados, que partiam do princípio de que a Terra fazia movimentos axiais, ou seja, os movimentos de rotação. Assim, mesmo que seja uma modelo completamente diferente do que vimos até a agora, tinha indicativos de que nosso planeta seria esférico. Os Vedas são bem antigos, e há arqueólogos que acompanham descobertas que vão até 8.000 antes de Cristo.

Aqui, a vida não é comentada como nascida de dois polos opostos, mas o Universo é entendido como tripartido: há a terra, o espaço e o céu. Para a cultura hindu, o ser humano também é tripartido entre corpo físico, prana (respiração), e mente. Os processos que acontecem em uma esfera estão sempre conectados com outra esfera. Ou seja, o que ocorre nos céus está conectado com a nossa mente.

Em vez de tratar de opostos, a cultura trata de ciclos, e o movimento axial pode ser visto em todos os momentos, já que vida e morte não são consideradas algo a se batalhar por, mas parte de uma grande roda. Não que não haja bem e mal, afinal há a crença na reencarnação via karma, e há escolas que tratem os textos sagrados por uma visão dualista. Contudo, se nos focarmos apenas nas quatro obras dos Vedas, os textos clássicos não determinam exatamente o que é fazer o bem, mas oferecem um estudo sobre o universo conectado com a humanidade. Para eles, tudo estava conectado, como partes de uma coisa só.

Esse pensamento acaba demonstrado também na sua visão de cosmografia mitológica. A Terra e as regiões mais infernais são carregadas por uma tartaruga, símbolo de poder criativo, e de força. Já a tartaruga vive em uma grande serpente, símbolo da eternidade. E, apesar de terem um mundo infernal e um divino, todos eles estão conectados pelo Monte Meru, que leva em seu topo o símbolo da criação, o triângulo.

Nesse ponto, temos mais pontos de contato com a mitologia nórdica, mas sem todo o sangue e combate. Além dessa diferença, a Terra é descrita como um corpo que revolve como uma respiração. Volta-se, desloca-se, como prana.

Há diversas histórias interessantes em muitos locais, a mitologia Yorubá-Nagô (especialmente ensinada na Bahia), por exemplo, tem variações do mito de criação, e uma das suas cosmografias tratam do mundo como opostos complementares. Terra e água são necessárias para criar a lama. E da lama, vem a humanidade. Trata mais de mediação entre os mundos do que em verticalidade suprema. A terra seria uma concha que simboliza o princípio de crescimento e expansão, enquanto a cosmografia mostra o mundo como duas meia-cabaças.

Quando distante do achatamento, as visões mitológicas de cosmografia, permitem mais ao papel do que é humano. Ele não é apenas mau ou apenas bom, pois não existem opostos contraditórios que vivem polarizados. Mesmo que haja dualidade entre bem e mal, divino e humano, as cosmografias menos terraplanistas tendem a colocar o papel da humanidade como um papel mais complexo, mais livre, e menos determinado pelos deuses.

Talvez possamos dizer que a humanidade está apoiada e amparada pelo divino nesse tipo de crença, mas servir é uma escolha que não necessariamente passa pela punição do inferno. Ou seja, o divino sempre invade o humano, mesmo que nem sempre os humanos tomem as decisões que são mais acertadas. A visão sobre mundo dos mortos ou mundo infernal é bem diferente da visão babilônica ou cristã, por exemplo. E bem menos dogmática. O mundo dos mortos é apenas isso: onde habitam os espíritos, mas eles não estão divididos de acordo com sua ascensão terrena. Assim, os modelos mitológicos de terra esférica geram sociedades com símbolos diferentes, que podem acreditar em opostos complementares, em vez de polos que devem se enfrentar. Não cabe aqui a polaridade perfeita, mas mediação e movimento.

Links legais sobre o assunto:

O conceito de cosmografia

Cosmografia geográfica: A Astronomia no Ensino de Geografia

Cosmologia e geomancia: um estudo da cultura Yorubá-Nágô

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Flávia Gasi é doutora e mestre pela PUC-SP no programa de Comunicação e Semiótica. Sua dissertação de mestrado foi ampliada para se tornar o livro Videogames e Mitologia. Atualmente é CEO da Forja, sócia do blog Garotas Geeks, e criadora da escola Verve. Com mais de quinze anos de experiência em jornalismo e comunicação no mercado gamer e de cultura pop, fundou um grupo de estudos chamado JOI – Jogos e Imaginário, e dá aulas de narrativa para games.